
Olho para a rua através da janela do meu quarto. Vejo nela reflectida o calor das luzes dos carros e o rasto que estas deixam no ar, parecendo querer desenhar algo nesta tela carregada de tons monocromaticamente cinza. O céu está carregado de fúria. Começam a juntar-se gotículas de todos os tamanhos naquela que é a mais cristalina das janelas. Chove. Chove muito. É o céu a chorar e eu sem perceber porquê.
Abri a janela para conseguir ver melhor. Queria ver aquilo com um olhar mais atento. Abri e não estava a chover. Estava um lindo dia. Um lindo e solarengo dia de Inverno que parecia ter um perfume primaveril no ar. Não percebi. Fechei a janela e voltei ao mesmo. Repeti o processo vezes sem conta... não percebi o que ali se estava a passar. Era eu. Reparei que o problema era eu. O que estava a ser reflectido não era o que estava do lado de fora mas sim o que estava do lado de dentro daquela janela. Sim, era eu. Concluí que todo aquele cinza, todas aquelas gotículas, tudo aquilo não passava de um reflexo meu naquela janela.
É assim. Quando estás longe, chove em mim.
