segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

chuva.


Olho para a rua através da janela do meu quarto. Vejo nela reflectida o calor das luzes dos carros e o rasto que estas deixam no ar, parecendo querer desenhar algo nesta tela carregada de tons monocromaticamente cinza. O céu está carregado de fúria. Começam a juntar-se gotículas de todos os tamanhos naquela que é a mais cristalina das janelas. Chove. Chove muito. É o céu a chorar e eu sem perceber porquê.

Abri a janela para conseguir ver melhor. Queria ver aquilo com um olhar mais atento. Abri e não estava a chover. Estava um lindo dia. Um lindo e solarengo dia de Inverno que parecia ter um perfume primaveril no ar. Não percebi. Fechei a janela e voltei ao mesmo. Repeti o processo vezes sem conta... não percebi o que ali se estava a passar. Era eu. Reparei que o problema era eu. O que estava a ser reflectido não era o que estava do lado de fora mas sim o que estava do lado de dentro daquela janela. Sim, era eu. Concluí que todo aquele cinza, todas aquelas gotículas, tudo aquilo não passava de um reflexo meu naquela janela.

É assim. Quando estás longe, chove em mim.

7 comentários:

Ana disse...

Uma simples palavra:

AMEI!!! :)

Anónimo disse...

Só te vou dizer uma coisa: Arrepiei-me a ler o teu texto! E acho que não preciso de dizer mais nada.

Anónimo disse...

Não quero que chova, nunca, no reflexo dessa janela. Não há sequer por que chover ou deixar acumular gotículas cinzentas e pesadas. Juntos, é sempre Primavera, ainda que de dentro para fora. E enquanto assim for, não deixará de haver bom tempo.

Nos dias de chuva literal e nuvens, podemos sempre sentar-nos juntos, e fingir que o nosso reflexo é o tempo radiante que sorri lá fora.

*

Sara Veiga disse...

Texto indíssimo, evocativo de sentimentos reais e profundos.

Sara Veiga disse...

Imagem muito bonita, tambén. Tocante.

ana david disse...

Tão bonito... :)

Unknown disse...

"Deus quer, o homem sonha e a obra nasce", é isto mesmo João, "pelo sonho é que vamos, o que importa é partir, não é chegar", dá espaço às palavras, ao sonho e a obra nascerá!

E já sabes: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena"

Adelina Moura