
Olho para a rua através da janela do meu quarto. Vejo nela reflectida o calor das luzes dos carros e o rasto que estas deixam no ar, parecendo querer desenhar algo nesta tela carregada de tons monocromaticamente cinza. O céu está carregado de fúria. Começam a juntar-se gotículas de todos os tamanhos naquela que é a mais cristalina das janelas. Chove. Chove muito. É o céu a chorar e eu sem perceber porquê.
Abri a janela para conseguir ver melhor. Queria ver aquilo com um olhar mais atento. Abri e não estava a chover. Estava um lindo dia. Um lindo e solarengo dia de Inverno que parecia ter um perfume primaveril no ar. Não percebi. Fechei a janela e voltei ao mesmo. Repeti o processo vezes sem conta... não percebi o que ali se estava a passar. Era eu. Reparei que o problema era eu. O que estava a ser reflectido não era o que estava do lado de fora mas sim o que estava do lado de dentro daquela janela. Sim, era eu. Concluí que todo aquele cinza, todas aquelas gotículas, tudo aquilo não passava de um reflexo meu naquela janela.
É assim. Quando estás longe, chove em mim.

7 comentários:
Uma simples palavra:
AMEI!!! :)
Só te vou dizer uma coisa: Arrepiei-me a ler o teu texto! E acho que não preciso de dizer mais nada.
Não quero que chova, nunca, no reflexo dessa janela. Não há sequer por que chover ou deixar acumular gotículas cinzentas e pesadas. Juntos, é sempre Primavera, ainda que de dentro para fora. E enquanto assim for, não deixará de haver bom tempo.
Nos dias de chuva literal e nuvens, podemos sempre sentar-nos juntos, e fingir que o nosso reflexo é o tempo radiante que sorri lá fora.
*
Texto indíssimo, evocativo de sentimentos reais e profundos.
Imagem muito bonita, tambén. Tocante.
Tão bonito... :)
"Deus quer, o homem sonha e a obra nasce", é isto mesmo João, "pelo sonho é que vamos, o que importa é partir, não é chegar", dá espaço às palavras, ao sonho e a obra nascerá!
E já sabes: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena"
Adelina Moura
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